O PIVÔ-ARMADOR: EVOLUÇÃO DO JOGO OU MODA PASSAGEIRA?

Nikola Jokic, do Denver Nuggets, um dos mais talentosos e versáteis da NBA, dribla a bola em contra-ataque

No basquete atual, o “pivô-armador” é peça fundamental a equipes que pretendam ter sucesso de longo prazo, tanto no cenário profissional quanto nas categorias formativas. Com exemplos vindo da NBA e da EuroLiga, a performance desses atletas vem moldando a nova face do jogo, e alterando as expectativas de recrutadores ao redor do mundo, indicando uma evolução no basquetebol que não foi prevista, mas parece que veio para ficar.

Nas décadas iniciais do século 21, atletas como Arvydas Sabonis e Dirk Nowitzki desafiaram as convenções tradicionais do basquete mundial, destacando-se na NBA e em competições internacionais. Sabonis era notável por sua visão de jogo e inteligência inigualáveis, e Nowitzki exibia uma versatilidade ofensiva pouco vista, com um repertório de finalizações impressionante para a época. Com estilos completamente diferentes dos pivôs dominantes da época, eles revolucionaram a atuação dos pivôs, e influenciaram o surgimento e ascensão de jogadores como Luis Scola e Pau Gasol.

Arvydas Sabonis (à esquerda), pivô lituano que atuou no Portland Trail Blazers entre 1995-2003, em jogo contra o Golden State Warriors.  Dirk Nowitzki (à direita), ala-pivô alemão que atuou pelo Dallas Mavericks entre 1998-2019, arremessando seu famoso fade-away contra o brasileiro Tiago Splitter do San Antonio Spurs

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Questões técnicas que antes limitavam jogadores das posições 4 e 5, mudaram com a evolução do jogo. Hoje o exemplo de Nikola Jokic, que se destaca pela visão de jogo e pela qualidade no drible e nos passes, evidencia uma mudança fundamental na dinâmica do jogo. A velocidade e complexidade tática do jogo moderno não mais excluem jogadores dessas posições de contribuir com a execução apurada de fundamentos que antes eram quase exclusivos aos armadores e alas – Jokic não é exatamente um atleta super ágil, mas jogadores como Joel Embiid, Domantas Sabonis (filho de Arvydas), Anthony Davis e Victor Embanyama se destacam pela velocidade e versatilidade incomuns aos “pivozões” de décadas passadas.

No âmbito tático, a popularização de formações como 4 abertos e 5 abertos transformou a dinâmica do jogo. O conceito de spread the floor, cuja definição mais simples seria “abrir o jogo” ou “utilizar os espaços da quadra” (mais sobre o assunto aqui, forçou uma adaptação rápida e flexível dos pivôs à velocidade do jogo. Sistemas como o Read and React permitiram não apenas variações táticas dinâmicas, mas também a capacidade de alterar o posicionamento durante a partida, criando um xadrez estratégico no qual jogadores mais inteligentes e versáteis se destacam.

O sérvio Nikola Jokic (Denver Nuggets) e o camaronês Joel Embiid (Philadelphia 76ers) se cumprimentam após partida da NBA. Jokic foi eleito MVP (jogador mais valioso) da temporada regular em 2020-2021 e 2021-2022, além de campeão e MVP das finais em 2023. Embiid foi eleito MVP da temporada regular 2022-2023

Outro fator importante nessa mudança é a atual incidência de arremessos de três pontos no jogo. Uma vez considerado uma raridade entre os pivôs, a bola de 3 agora é uma arma crucial no arsenal das equipes em todos os níveis, envolvendo jogadores de todas as posições. A era em que esses arremessos eram uma surpresa ocasional ficou para trás, e jogadores como Joel Embiid, Karl-Anthony Towns, Nikola Vucevic e Brook Lopez são ícones atuais dessa transformação, além do próprio Jokic.

As mudanças nas estratégias defensivas também são evidentes, com equipes ajustando-se para conter a versatilidade dos pivôs-armadores. Este fenômeno ilustra não apenas uma evolução técnica, mas também uma revolução cultural no basquete, e o impacto do pivô-armador se reflete nos clubes formadores e escolas ao redor do mundo, inspirando uma nova geração de atletas a repensar e ampliar os limites do que é possível no jogo do basquete moderno.

A ascensão do pivô-armador, combinada a popularização dos sistemas de jogo mais dinâmicos, podem ter criado uma situação ainda mais intrigante para as categorias formativas. O desafio pode parecer enorme à primeira vista, mas a oportunidade que nasce é a de formar jogadores mais completos e versáteis. Os receios mais comuns aos treinadores de basquete de base, como os erros de execução de fundamentos, a heterogeneidade das equipes, e a dificuldade nas tomadas de decisão, se tornam motivos, e não empecilhos, para o desenvolvimento de todos os fundamentos do jogo, por todos os atletas envolvidos no processo. Talvez nunca tenha havido uma chance melhor para que jogadores e técnicos se desenvolvam, evoluam, e expandam seus horizontes.